Sonhos
Inconscientes
Nada como realizar um sonho inconscientemente.Todos nós,
surfistas, sonhamos em um dia poder desfrutar de um tubo
gigante. Esse ato ímpar de deslizar dentro da mãe-natureza
limpa a alma de qualquer ser humano. Mesmo os que são
declarados ‘merrequeiros’ (surfistas de ondas
pequenas) sonham em um dia perder o medo e colocar pra dentro
de um tubo imenso. Não conheço uma pessoa
que após ficar dentro de um tubo translúcido
não tenha saído energizado. Está escrito
na Bíblia que a água limpa a alma. Uma sessão
normal de surf já é alucinante, mas o tubo
tem sua particularidade, tanto é que é a manobra
mais almejada por todos.
O meu maior tubo foi digamos que inconsciente. Quando queremos
entubar em uma sessão normal de surf precisamos remar
de uma forma que entremos atrasados na onda. Assim, nos
posicionamos atrás do bowl, onde a crista irá
descer, e entramos por detrás dela. No tow-in (surf
rebocado por jet-skis em ondas oceânicas) a regra
é a mesma, mas quem irá colocá-lo na
onda será seu parceiro, e ele terá que ter
treinado o suficiente com você para deduzir onde você
prefere entrar.
Em Jaws, no dia 10 de janeiro, depois de ter surfado algumas
das melhores ondas da minha vida, rebocado pelo campeão
mundial de windsurf e pioneiro no local Robbie Sieger, me
deparei com uma das maiores emoções na minha
carreira sobre uma prancha.Uma das maiores séries
do dia escureceu o horizonte. Já tinha surfado algumas
ondas de cerca de 50 pés, mas essa série tinha
em torno de 60+. Robbie foi determinado para a segunda onda
da série. Quando passei pela primeira meu coração
já começou a bater mais forte.A segunda era
enorme. Como essa série era maior do que as outras,
o ponto de entrada se deslocou alguns metros em direção
ao canal, mas nós não notamos essa diferença.
Resultado: eu fui lançado na onda um pouco atrasado.
Até aí tudo bem, se fosse em uma sessão
normal com ondas de até 15 pés, mas em uma
morra dessa magnitude os resultados podem ser bem perigosos.
Me lembro que na hora do drop só pensava em acelerar
para não ficar para trás, e na hora da cavada
eu tive a certeza de que o único caminho seria por
dentro da onda.Tomar o outro trajeto (ir reto) seria mais
perigoso, e colocando no tubo eu iria ver um dos visuais
mais bonitos da vida e ainda teria a chance de poder sair
são e energizado como nunca do canal. Bateu aquele
frio na barriga. Afinal, uma onda daquela em Jaws pode mandá-lo
mais cedo para o céu. Mas com muita fé em
Deus vi rodar aquele tubo imenso e lutei dando alguns toques
na prancha em direção ao canal. Até
mesmo vi meus amigos sentados no jet-ski de dentro do salão
(de dimensão igual à do cilindro da Rodovia
dos Imigrantes). Mas minha alegria durou pouco. A espuma
que vinha como um trator de dentro do salão me engoliu
vivo, acabando com as minhas esperanças de sair no
canal. Rezei forte e deixei minha vida nas mãos do
Todo-poderoso. O caldo foi de acordo com o tamanho e power
da onda: grotesco. O barulho era ímpar e ensurdecedor.
Parecia que eu estava numa festa eletrônica das mais
animadas. Eu era jogado de um lado para o outro naquela
escuridão, como se meus 83 kg não fossem nada.Graças
aos dois coletes salva-vidas que estava usando fui arremessado
à superfície cerca de 30 metros do paredão
de pedras, mas que pareciam apenas 10m após ter tomado
o caldo da segunda onda. Quando vi meu parceiro vindo em
minha direção para me resgatar percebi que
estava são e salvo e que sem querer havia surfado
o maior tubo da minha vida, e que muito poucos (cerca de
cinco) no mundo já tinham feito algo parecido.
''Always ready'' é o lema para quem se aventura em
cima de uma prancha.O melhor de tudo é que nessa
mesma sessão abençoada ainda surfei a maior
onda registrada até hoje (cerca de 70 pés),
onde o havaiano Pete Cabrinha foi para a esquerda e eu para
a direita. Mas essa já é uma outra história.
Aloha!
|