Muito ansioso eu estava para
chegar à Europa e disputar a mais "gelada perna"
de surf do WQS. Ansioso também não só
por este fator, mas em conhecer uma nova região no
norte da França, e é lógico, a Escócia.
Sabendo do frio, deixei pra ir em cima da hora para os eventos,
tendo em vista que estou com novas dores nas costas {já
estou me tratando} e não iria poder treinar. No dia
seguinte à minha chegada, já fui correr minha
bateria e me classifiquei, o que já valeu a viagem,
pois sem treino às vezes não dá. Com
isso, na segunda fase voei, e passei a torcer e filmar os
amigos brasileiros no tour. Finalizei nas oitavas-de-final
na décima sétima posição, mas
Bernardo Pigmeu - parceiro na viagem e que se juntou a mim
no aeroporto de Nantes vindo da Indonésia, onde pegou
altas ondas em Asu para o novo filme da Hang Loose - foi
até as semis e ficou com a sétima posição.
A praia de Brétignoles era o maior visual; o pico
no qual se realizou o Vedee Pro 4* era um reef break com
ótimo potencial, e isso se confirmou no dia final
da competição, que teve onda de até
4 pés sólidos e alguns tubos. Mas segundo
a galera que havia ido ao evento ano passado, tal como Willian
Cardoso, o pico fica grandão e a onda com muita extensão.
A brasileirada compareceu demasiadamente, e o próprio
Willian estava surfando muito bem, porém também
parou na décima sétima posição.
O meu conterrâneo Jano Belo e o carioca local do pico
do CCB {Praia da Macumba - RJ} Gustavo Fernandes estavam
dando espetáculo, mas nas quartas-de-final não
acharam as ondas e ambos ficaram com as quartas colocações
em suas disputas, tendo finalizado na décima terceira
posição. O pessoal correu com o evento, e
após o mesmo ter terminado sábado, ainda no
domingo a organização fez uma expression session,
e Tânio Barreto ficou com a segunda colocação
no melhor aéreo. Na primeira foi o magrão
Kirk Klintoff, que, aliás, não pode ver um
pedaço de lip que já sai voando. O público
neste evento era de se comentar, pois havia muitos senhores
e senhoras na casa do 60, 75 anos. Mas o mais incrível
era que na grande maioria eles estavam aterrissando na área
do evento de bike. Que pessoas saudáveis! Ficava
amarradão em vê-los no maior pique dando pedaladas.
Mas França é isso aí: a bike manda.
E eram muitos também que passavam pra cima e pra
baixo treinando para os "Tours de France" da vida.
Cidadezinha visual é a tal da Croix de Vie, e na
nossa partida para Nates pra pegar o vôo para a Escócia
resolvemos dar um pit-stop na beira do canal, no qual aporta
um belíssimo cais com vários barcos e escunas.
A tradicional "mule marinere", com uma gelada
"pression", nos deixou com gostinho de quero mais,
e Pig, que nunca tinha experimentado o prato, se amarrou.
Chegar no pico de Thurso para o O'Neill High Land Pro na
Escócia foi uma viagem. Digo isso porque quase perdemos
nossas baterias, ou melhor, o Pigmeu e o Jano Belo deram
"WO". Mas como haviam avisado que iriam se atrasar
- na nossa última escala na cidade de Aberdeen, a
companhia aérea não quis levar nossas pranchas
pois o avião era de pequeno porte e com isso tivemos
que alugar carro e dirigir por 4 horas e meia até
o pico do evento -, a organização do evento
deu um jeito e os colocou nas últimas baterias da
fase do evento principal.
A estrada era muito visual, repleta de fazendas com animais
vistosos, castelos e aquelas cidadezinhas de filmes... O
ponto máximo da viagem foi quando avistamos alguns
cumes de montanha cobertos de neve, e aí eu pensei:
“Tô ferrado!”. Ao chegarmos em Thurso,
o negócio era frio mesmo. Quando o dia amanheceu,
fui bem cedo pra praia e caí direto na bateria, que
era a primeira do dia. Na real, não queria congelar
antes do tempo, já prevendo o que poderia acontecer.
Munido de um long dividido entre 4, 5, 6 milímetros,
botas, luvas e touca, remei no canal do point break maravilhoso.
Pensei: “O que tinha de bom, tinha de frio”.
Na hora que furava a onda estava tudo aparentemente bem,
mas era só dar duas braçadas que a friagem
percorria as narinas e ia estalar lá no ouvido. Acabei
tirando a touca pra ir me acostumando com o frio e poder
escutar as notas. Estava indo bem na escolhas das ondas
menores, até os 3 minutos finais, quando o americano
Clint Climmins virou a bateria e veio me marcar. Aí
não consegui ganhar os 3.50 que precisava pra me
classificar, ficando assim na minha bateria de estréia,
e, se não me engano, na quadragésima nona
posição. Uma vez tendo perdido, a parada era
curtir o lugar e viajar nas ondas que beiravam os 5 pés
nas maiores das séries. O campeonato era em um lugar
bizarro, pois a estrutura estava montada aos fundos de um
castelo abandonado que tinha uma mistura de fazenda. Não
eram poucos os momentos que vinha aquela catinga de bosta
da "cocheira", cheia de vaquinhas e bodes, que
ficava atrás da área dos competidores. Se
bem que a galera preferia ficar era dentro dos carros mesmo,
pois não tinha quem agüentasse muito tempo ao
relento. Além disso, o tempo variava entre brechas
de sol, rajadas geladas de ventos com uns 30 knots e algumas
neblinas de granizo. Eram comuns as horas em que a galera
estava na bateria com o granizo caindo no "quengo".
Odirley Coutinho foi um dos que estavam arrebentando no
evento. Alucinado com a situação, disse após
sair de uma de suas primeiras disputas: “Meu, tá
nevando!”. Assisti a várias baterias de brasileiros
e vi bons momentos de Leo Neves, Renato Galvão, Diego
Rosa, Patrik Beven e Eric Ribiere, que apesar de serem brasileiros,
correm pela França, já que moram neste país.
O evento, após seu começo, ficou parado por
alguns dias. Eu já me encontrava no Brasil quando
vi o excelente segundo lugar do Pigmeu, que perdeu pra um
cara que estava em casa naquelas condições.
O nome do bicho é Russel Winter, inglês de
Newquay, cujo apelido é “Bull-dog”. E
ainda tem o sobrenome de frio.
Por Fabio
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