O mês de janeiro tem mostrado boa quantidade de swells no North Shore, porém poucas ondulações e ventos coincidiram 100% pra que rolassem muitos dias bons como no mês de dezembro. Confesso que não estava muito preocupado nesse meio tempo e nem chequei tanto o mar como deveria. Desde que cheguei aqui tive uma contusão no pescoço alastrada para o ombro e tornando-se uma bela de uma chata tendinite.
Tratei constantemente para que estivesse de volta ao surf até o final de viagem. Há cerca de duas semanas peguei apenas umas três ondas, mas nos últimos três dias voltei ao surf e hoje consegui me despedir de Sunset com uma session muito divertida.
No próximo swell, de quarta pra quinta-feira, estarei em pleno chá de avião e aeroporto de volta pra casa. O mar amanheceu aqui com uns 6 a 8 e algumas séries maiores chegando aos 10 pés. Peguei uma 9’6 que encomendei com Jorge Vicente para fazê-la funcionar ainda nessa temporada, pois se não surfasse com ela hoje, só no próximo inverno. Fiquei bem lá no outside apenas esperando as da série.
Deu pra se divertir bastante em vários drops com muita velocidade. Em uma dessas, fui rabeado e me vi em um certo sufoco, pois o cara que desceu na frente, não obteve total controle e dropou meio que na diagonal no trilho que eu deveria seguir. Após ter completado o drop, esperei o tranco do espumeiro nas costas e optei por chutar a prancha antes que caísse, com medo de que ela se partisse.
Foi só o drop, mas foi muito bom. Os brasileiros Biro, de Maresias, e a nossa big rider Maya estavam nessa session como Ken Bredshaw, famoso por dropar aquela onda enorme de tow-in no outside de Log Cabins quando a modalidade surgiu. De Sunset dava pra ver Backyards com alguns caras costurando as paredes, que com certeza estavam muito boas também. Com mais dois dias de surf e previsão de “ hot dog” para esta segunda-feira, vou dormir pensando no surf que farei de fish. Os dias que surfei com este modelo aqui foram muito proveitosos.
Aproveito pra jogar junto com este texto uma foto de Pipe em uma caída que relatei no texto anterior. A foto é do Bud, pai do Ian Dabercow, moleque de Santa Catarina de apenas 14 anos muito atirado. Tive a oportunidade de surfar com ele em vários mares de tamanho e o vi dar bons drops como um de hoje em Sunset.
E por falar em Ian, o meu filho partiu há alguns dias para Nova Zelândia para disputar o mundial Amador que rola por lá. Foram ele e o Sidinho, que tambem estava rachando casa conosco, bem como os grommets Luan Wood e Lucas Silveira. A casa ficou vazia, pois mesmo quem não estava conosco, diariamente fazia uma visita e o surf era em grupo. Fico aqui na torcida por eles e desejando-lhes boa sorte.
Ô loco meu, brincadeira, essa década passou a jato! E no último dia surfei em Pipe grande pela manhã junto com Sidinho e Haleiwa à tarde. Estou no Hawaii meio debilitado do pescoço devido a um “pedala robinho” que levei de uma onda na praia do Cachorro (Fernando de Noronha) -quando estive por lá antes de vir pra cá.
A caída em Pipe foi rápida devido a uma sessão de acupuntura marcada para às 9 da manhã daquele dia. As ondas vinham de Banzai e, ao clarear, aproveitamos o pouco número de pessoas - coisa rara - na água pra tentar pegar algumas.
O mar ainda estava acordando e aos poucos foi melhorando. Peguei minha 7 pés vermelhinha e remei em meio à forte correnteza. Fui parar depois de Ehukai Beach Park antes de atingir o outside. A remada foi longa, mas foi bom pra ir observando onde as séries quebravam constantemente.
Não queria dar mole para não levar na cabeça. Em pouco tempo vejo o master bodyboarder Mike Stwart indo lá pro segundo ou terceiro reef pra depois vir despencando e quicando sua prancha em um paredão. Depois de ter boiado um pouco, consegui pegar uma da série. Dei aquele dropão e desci bastante até a base.
Como a ondulação estava com mais influência de oeste, as ondas não estavam rodando tanto e o espumeiro - quando vinha - era volumoso. Nessa me ferrei, pois quando atingi a parede novamente depois da longa cavada segurando na borda, a espuma pegou e me desequilibrou.
Ainda fiquei de layback por alguns segundos, porém achei melhor me deixar levar pela espuma antes que o chacoalho fosse pior. De volta ao outside, me fizeram companhia Ian Dabercow e Sidinho. “Danado” é o moleque da nova geração havaiana, Jonh-Jonh Florence. O bicho passou batido pra Banzai e já veio despencando em uma morra.
Por ser um peso pena, quase saiu voando, mas completou o drop com sucesso. A real é que demorei pra pegar minha segunda onda e quando vi, já era hora de sair para meu compromisso. Estava ficando agoniado quando a série pintou lá no terceiro reef. Procurei me posicionar pra não levar nenhuma na cabeça e peguei a segunda da série. Mas, uma vez entrei nas últimas e desta vez administrei melhor o bottom turn sem ir muito na base.
De fato adquiri uma boa velocidade pra contornar o lip por baixo, porém quase fui pego por ele. Mas, consegui segurar e contorna-lo mais uma vez antes da onda fechar. Segui rumo ao inside. Em uma hora de surf peguei duas ondas - ótimo se tratando de Pipe.
Fiquei amarradão e durante a sessão de acupuntura visualizei por várias vezes esta onda relatada. Mais tarde, já em casa, recebi um e-mail do fotografo Paul Cohen dizendo que viu a onda no noticiário local e que Haleiwa pela manhã estava clássico. Com a entrada do vento Kona, ainda no meio da manhã, Haleiwa era com certeza a boa opção para a caída da tarde.
Aproveitei que tinha de ver dois shapes encomendados com Jorge Vicente no Old Shugar Mill pra surfar por lá. Depois de ver os dois foguetes deixados na laminação, parti pro surf de uma horinha. Séries com forte vento na cara da onda entravam demoradas. Me posicionei mais ao outside possível a fim de pegar a série que vi antes de entrar na água. A real era que o mar estava baixando e outra daquela não veio mais.
Acabei boiando e remando um bocado contra a correnteza para apenas pegar três ondas na queda. A saideira foi a melhor. Mais uma vez com a 7′0 vermelhinha, costurei a onda até o inside. Ao sair da água, vi o Jamie O’Brien entrando para sua segunda queda (Cohen comentou que ele também estava lá pela manhã).
Foi realmente estranho não ver O’brien de manhã em Pipe, de fato Haleiwa era o que se encontrava clássico com séries de 6 a 10 pés plus.
Ao lado de Haleiwa, o pico de Avalanche parecia melhorar quando um “japa’ solitário fazia uma linha bonita . Com a leve chuva, um belo arco-íris se formou por trás da ponte histórica da cidade. Hora de partir e agradecer a década que se foi.
No momento o mar se encontra baixo no North Shore, mas tal como no último dia de 2009, vem swell pela frente.
Um excelente 2010 a todos!
Paz e saúde é o que interessa. Como já dizia o brother Ranan Rocha nos anos de circuito mundial, “o resto nóis corre atrás”.
Aloha.

Fia, Waimea. Foto: Ithaka.
Veja o relato de Fia no YOUTUBE. Veja a onda que fechou a baía no SURFLINE . Chegar ao Hawaii no começo de novembro é uma boa, pois quase sempre os swells aparecem aos poucos. Assim dá para se acostumar com o power havaiano sem traumas. Esta foi a primeira temporada que chego no final de dezembro e fui recebido com uma bomba. Em pleno dia de Natal, Papai Noel quase exagera no tamanho do mar. Waimea acordou fumando e algumas séries lembraram o dia do Eddie Aikau. Definitivamente, está temporada esté sendo muito boa, as ondas não param! No noticiário local na noite anterior ao swell, os jornalistas avisavam que o swell estaria com 30 pés ou mais. O suficiente pra trazer tudo quanto era turista para o North Shore e trasnformando a Kamehameha High Way em um certo caos. Negócio de cair em mar grande de madrugada não é muito comigo, então ao mesmo tempo que ia buscar a minha gunzeira 10 pés na casa de um amigo, embacei até saber o real tamanho do mar. Ao chegar no estacionamento lotado, tivemos a sorte de pegar uma vaga. Enquanto tiravamos nossas pranchas, eu e Sidinho vimos uma série enorme espumando por de trás dos arbustos. A pergunta foi: “Será que tá muito grande?” Pedi para o Sidinho perguntar ao salva-vidas se o mar estava subindo. O moleque volta dizendo que estava estável, com séries de 15 a 18 péscom e algumas de no máximo 20. Até aí já tava um bocado indigesto, mas ao entrarmos no mar, vimos que realmente havia umas grandes. A primeira cena que vimos foi o Felipe Cesarano ficar duas ondas embaixo dágua. Depois veio o local Clark em uma morra. As ondas não paravam. Peguei minha primeira junto com uns 6 ou 7. Um surfista com cara de havaiano misturado com japa desceu na minha frente, mas acabou caíndo no drop. Acho que era o Denis Pang. Tomei cuidado para que não batesse nele ao mesmo tempo que prestava atenção em quem vinha atrás. Foi uma baliza e tanto contornar a situação. A onda era grande e foi ótimo pra quebrar o gelo. Outras morras vieram e vi uma grande do Igor Lamerts. Vários brasileiros na água, incluindo Junior Faria, Daniel Skaf, Ysn Guimarães, Beto Gêmeo, Silvia Nabuco e os moleques Lucas Silveira, Sidinho e Thiago Guimarães. Esses na casa dos 14 e 17 anos mostrando disposição pra estar em um mar daquele tamanho. Após boiar um pouco consegui pegar outra com mais uns três caras e depois acabei pegando uma boa sozinho, pois os que remavam do lado acabaram não entrando. Nessa tive a sorte de um amigo de Recife, Inaldo, fotografando canal com uma digitalzinha. Nesse momento já faziam umas três horas que estávamos na água e quando parecia mais estável, pintam várias linhas de tamanho no horizonte. Mesmo sem assimilar bem, deu para ouvir uma voz vindo da torre de salva-vidas alertando a grande série. Havia umas 40 ou mais cabeças no pico naquele momento. Uma big estourou a pelo menos duzentos metros mais ao fundo de onde estavamos. De repente, os mais experientes remaram um pouco pro fundo e pararam. Fiquei sem entender, mas remei um pouco pro outside. Quando a ondulação dessa espuma grande passou perto de nós, aí veio a encrenca, uma parede verde totalmente em pé de um lado ao outro da baía. Remei feito louco e não teve jeito, mesmo já muito no outside a onda gigantesca fechou poucos metros à minha frente e de mais uns dois. Os outros mais atrás já haviam tomado a primeira. Subi na prancha e mergulhei mais fundo que consegui ao ponto de meus ouvidos sentirem a pressão. Na real, o medo acabou sendo maior que o repuxo, ou talvez realmente eu tenha ido fundo, pois consegui passar a onda sem maiores problemas. Pra minha sorte minha prancha estava inteira e a onda de trás foi menor, sem fechar novamente a baía. Dois caras a minha volta quebraram suas pranchas e acho que escapei de quebrar a minha porque usava uma cordinha 20 pés, cujo tamanho dava pra fazer uns quatro varais lá no quintal de casa. Depois dessa série deu uma calmaria e todos sairam remando,uns com prancha, outros com pedaços, outros com o auxilio do jet-ski (pura sorte) e alguns nadando mesmo. Por alguns segundos ainda me mantive no outside com mais uns dois surfistas, incluindo o ex-top do WCT Ross Williams. Mas, pensei melhor e achei mais prudente sair remando e orientando o Lucas Silveira, que com 14 anos pegava sua primeira Baía fechando. Vale ressaltar o apoio que Clyde Aikau, irmão do legend falecido Eddie Aikau, deu a alguns surfistas que partiram suas pranchas e tinham pouca experiência. O cara remou ao lado orientando o melhor local para sair . Uma vez na beira da praia, os relatos eram que a série fechadeira teria uns 30 pés. Confesso que na hora que a onda veio não tinha noção de sua grandeza, pois nunca havia estado num mar daquele, tampouco visto uma parede daquele tamanho. No dia de Natal, foi um presentão e tanto, mas realmente quase que o Santa Claus exagera.

Fia, Waimea. Foto: Inaldo.
Pig caiu com sua ‘tampa de privada’ biquilha e com a camêra Go Pro no bico. Deve ter feito boas imagens, pois começou surfando no canto esquerdo da Cacimba e depois foi para o meio. Após esta session, fui para o Abras, pois essa onda é raridade quebrar.
Não queria perder este dia lá. Nesta caída surfei também com o Grillo, que pegou um bom tubo. Na session anterior, ele comentou que pegou boas nas esquerdas da praia do Porto. O visual realmente estava bonito.
Como o mar hoje estava pesado, a galera transferiu o evento para amanhã, pois parece que vai baixar e alinhar mais…Vou aproveitar pra fazer o surf matinal, já que minha função aqui é ser juiz da prova junto com Picuruta e Pedro Muller.
Aloha!
Confira o video feito por mim em que comento a decisão de me aposentar e falo sobre meus planos nesta nova fase.
Lycra pendurada from hangloose on Vimeo.

Lycra de competição agora é museu. Foto: arquivo pessoal.

Fia e sua coleção de lycras. Foto: Arquivo pessoal.
Aficcionado por competição, desde 2004 tentava voltar ao WCT. Mas, problemas de coluna me atrapalharam em 2005 e 2006. Resolvido o problema, vi que a fila havia andado e, em 2007, percebi que meu surfe era o mesmo, porém a nova geração estava com tudo e principalmente com manobras aéreas ,que decisivas em uma bateria deixava tudo mais difícil.
Sempre fui disciplinado e esforçado. Talvez isso tenha me feito parar de competir profissionalmente agora, aos meus 40 anos. Nem imaginava que um dia iria chegar aqui, pois quando entrei no circuito da ASP, os caras paravam antes dos 30 anos.
É bem verdade que no fim da carreira competitiva comecei a visualizar o prolongamento das baterias, justamente por ter a competição no sangue há muito tempo, por gostar muito e ser um pouco teimoso e persistente, pois de repente poderia ter pendurado a lycra há algum tempo.
Mas essa esticada acabou me confortanto. Perdi muitas baterias ultimamente e agora a decisão final chegou. O momento é realmente este e começa uma nova fase em minha carreira de surfista profissional fora das competições.
Nesses anos de vida competindo mundo afora reforcei o aprendizado de muita coisa. Vi minha geração ser sólida e presenciei umas três gerações do surfe brasileiro no circuito. Nunca tracei metas e apesar de ter visualizado o topo, sempre procurei seguir degrau por degrau com o pé no chão.
Sendo assim, quando as coisas iam contra as expectativas, não doíam muito, já as que eram além do que esperava , curtia bastante depois de assimiladas. Casei e tive filhos cedo… A preocupação inicial transformou-se em garra e foco, pois tinha uma família pra sustentar.
Todo o trabalho para carregá-los comigo em volta do Globo era pouco diante de minha felicidade. Muitos viam aquilo como um problema, mas era uma solução para me manter vivo no Tour e, claro, para não perder tanto o crescimento e desenvolvimento de meus filhos.
Com isso contei também com a parceria de minha esposa Elka, sempre guerreira, me incentivando e tomando conta de muita coisa ‘extra surfe’.
Nesses anos trabalhando com o esporte, aprendi muita coisa em outras áreas como mídia, informática, vídeo e fotografia, marketing, fabricação de pranchas etc. Com tanto tempo dedicado nessa profissão, agora sigo por essas áreas, sempre treinando e me exercitando pra estar com o surfe em dia para o que der e vier.
Farei mais surf trips, principalmente pra lugares que ainda não conheço. Entretanto, como sempre, deixarei os caminhos me levarem e subirei degrau por degrau dentro de qualquer coisa, darei passo a passo e como diria Chico Science: “Um passo a frente e você não está mais no mesmo lugar”.
Talvez, o lap top e a internet foram fatores determinantes para me segurar no Tour mundial por mais algum tempo. Fui apresentado por Renan Rocha, pioneiro entre todos os surfistas do WCT no final de 98. E, com a net preenchia-se o tempo vazio entre sessions de surfe, já que facilitava e barateava a comunicação com familiares, amigos, patrocinadores e, enfim, veículos de divulgação do surfe em geral.
Renan, com mais duas cabeças pensantes, Rogério e Pipo, munidos de mais uma equipe de peso, montaram o site Gzero e me convidaram a trabalhar como correspondente.
A oportunidade caiu como uma luva e logo fiquei viciado em mandar textos e fotos… muiiiiitas fotos. O site Gzero bombava na época e a equipe era maravilhosa, com Pedro Muller, Suzanna Queiroz e Piu Pereira, completando o time.
Eu tinha uma coluna, chamada ‘Fiatuií pelo Mundo’ e fiquei bem triste quando o site foi encerrado. Porém, sempre gosto de guardar tudo e tenho um grande arquivo da época. Recentemente, amarradão com a peformance de Rubinho Barrichelo e na torcida para Felipe Massa retornar, me peguei vasculhando coisas antigas, achei esse texto e decidi publicar.
Aliás, tem muita coisa legal que publiquei no passado e a medida que vai sobrando um tempinho, vou jogando no ar… Espero que curtam.
Abraços
Fia
Texto publicado em
05 / 04 / 2001
Há semelhanças entre Surf e Fórmula 1?
Quando comecei a competir pelo Brasil, na metade da década de 80, as marcas (escuderias) de surfe tinham a prática de armar suas barracas ao lado de palanques dos campeonatos, estendendo-se por centenas de metros na areia da praia.
Nessa época, era um pouco “antenado” na F1 e sempre pensava que aquilo poderia ser uma corrida. Em outros moldes, é claro. Os atletas e demais pessoas envolvidas com as equipes eram bastante unidas e as barracas funcionavam realmente como “boxes”. Cada uma maior que a outra, pois todas queriam chamar a atenção.
A diferença é que, na maioria das vezes, éramos nós, surfistas, quem tínhamos de montar o quebra-cabeça de ferros e lonas. Na época, eu tinha um patrocínio de uma surf shop local de João Pessoa, chamada Star Fin. Os proprietários, Walter e Lucas Porpino, empolgados, compraram uma barraca enorme, que mal cabia no porta-malas do Santana que viajávamos.
Era um trambolho danado e levávamos cerca de uma hora para montarmos a “bichinha”. Lembro-me de uma tenda em forma de pirâmide, da marca Marambaia (se não me falha a memória) que era um troço faraônico, muito legal.
Os surfistas (pilotos) e técnicos/shapers (mecânicos/engenheiros) passavam o dia inteiro ali na arena com suas pranchas (carros), sempre testando um modelo e outro, “colocando na pista” suas máquinas principais”: as pranchas mágicas!
Realmente as ondas eram a pista de testes e sempre brincava com alguns amigos, antes de começar as provas (campeonatos), dizendo que colocaria os “carros” na pista” para o treino oficial, para poder reparar os últimos detalhes, como diminuir o tamanho das quilhas (aerofólios) para que as pranchas ficassem mais ariscas, colocar antiderrapantes ou passar uma parafina para melhorar a “tração”, dar uma polida no fundo das danadas para atingirem mais velocidade etc.
O movimento do público era grande, todos queriam ver seus ídolos de perto para capturar algum objeto de lembrança, tal como camisetas, viseiras ou até mesmo simples adesivos. Os anos se passaram e acabaram-se os ‘festivais de surf’, como eram chamados os campeonatos da época. Com isso, se foram nossos “boxes”, mas ficaram as lembranças de uma época mágica do surfe.
Na F1, o Brasil já tem oito títulos mundiais, divididos entre Fitipaldi (2), Piquet (3), Senna (3) e , no momento, (Rubens) Barrichello tenta de tudo para alcançar o topo. Ao mesmo tempo, alguns de nossos surfistas (pilotos) tentam se consagrar, tal como na Fórmula 1 e, com isso, arrastar mais um punhado de seguidores para colocar o esporte onde ele deveria estar, explodindo na mídia diversificada.
Talvez o surfe nunca chegue às dimensões de uma F1, mas com certeza crescerá em grandes proporções nesse novo milênio. E, quem sabe, as novas gerações de surfistas não sejam idolatrados como os grandes pilotos?
Por Fábio Gouveia
Foi exatamente esta pergunta que o atendente do check-in da companhia aérea fez ao me ver embarcando com pranchas de Floripa rumo a Brasilia para participar do evento da Mormaii de Wake Surf no lago Paranoá.
Em tom de brincadeira, disse que os tempos estão mudando (kkk).
De fato essa foi a sexta edição do evento. Fui convidado a participar de outras, porém não tive oportunidade de ir devido aos compromissos com o circuito mundial etc. Mas, na ocasião, não me via preparado pra fazer uma competição de wake surf sem ter treinado ou conhecido a fundo o esporte.
É bem verdade que dá pra fazer umas sessions divertidas, mas o leque de manobras é menor - pelo menos com o equipamento tradicional de surfe 99,9% das vezes usa-se uma prancha convencional com três quilhas.
Lá, me senti na obrigação de testar novos equipamentos, principalmente vendo as peformances dos wake surfistas que estavam ali. Era nego de wakeboard, windsurf, kite surfista, stand up (pedlezêiro) etc. Caras de várias modalidades e de diferentes estados.
Em comum, todos eram surfistas e fissurados. Quem inventa e faz um esporte daqueles a milhas de distância do litoral, só pode ser muito fissurado. A galera queria imprimir um surfe, porém com o equipamento do vencedor da prova (Degrazia) o negócio era um mix de wakeboard, Sk8, surfe…
Sei lá, um monte de coisa diferente e a pegada das manobras também era diferente. A prancha parecia uma tampa de privada com cerca de 4 pés, bem larga e com um estabilizador central bem pequeno. O “caba” não parava de manobrar e parecia uma carrapeta, de tanto que acertava 360’s.
Eu não consegui completar nenhum com minha fish 5’ 7 tri fin. Fazia o giro e quando achava que estava no “time”, ficava pra trás da onda, pois ela ia embora junto com a lancha (kkkkkkk). Era aquela coisa, queria sempre tentar dar uma rasgada forte, um cutback e bater na espuma, mas essa segunda opção era praticamente impossivel.
Digo isso porque tenho em mente tentar executar e completar um cut alí… Mas, precisa treino e analise. Isso só se eu arrumar um barco na lagoa da Conceição ou fazer estágio na lancha de um jagunço natalense que mora no cerrado. À base de rapadura, ele passava o dia levando pra “baixo lago e pra lago acima” a turma que estava lá.
De surfista profissional, também estavam Carlos Burle e Julio Terres. Ainda amador, Terres está em aprimoramento rumo ao surfe profissional. Aliás, acho que foi a segunda vez que Julinho estava no lago. Se não me engano, ele já havia ganho e desta vez ficou com a segunda colocação.
Ele não treinou no sábado e talvez isso o tenha prejudicado, pois só entrou na água no domingo - justamente o dia de sua apresentação. De três a quatro puxadas, Julinho ficou pra trás em uma, deu várias batidas em outra, mandou um 360o e executou um aéreo na última.
Deu pra ver que o bicho tinha muita facilidade, estava no foco e prestando bem atenção mesmo sem ter treinado. E o Burle chegou do Rio de Janeiro aos 45 do segundo tempo. Foi botando o long jonh e já sendo puxado pela lancha pilotada por Angelo, o “Zé da rapadura”, que tambem participava da prova.
Achei Carlinhos bem soltinho na marola. Big wave rider desde o tempo das pranchas Realce Nordeste, sempre rebocado pelo jet-ski, Burle já saiu com pernas suficientes pra manobrar bastante. O evento foi uma grande diversão.
Tanto eu como acho que o Burle, encaravamos desta forma. Pra fala a verdade, não fui pensando em competir, mas quando vi já estava dentro do campeonato e fiquei em terceiro. Não estou aqui desmerecendo nenhum competidor nem querendo ser o “tampa de crush”…
Mas, pra eu participar de um “campeonato” de uma modalidade que nunca havia feito, precisa de treino, análize e conhecimento. E isso só terei com outra oportunidade, daí pretendo treinar, desenvolver equipamentos etc.
Dando um cutback, o evento foi demais! A galera de Brasilia é amarradona e muito fissurada mesmo. Daí, vendo que todos os atletas ao estarem no barco enquanto um adversário era puxado, batiam palmas, torciam e davam dicas, me perguntava: Será que os bichos encaravam aquilo como uma prova de fogo ou pura diversão e confraternização?
Foi muita agitação em minha cabeça em apenas dois dias, conheci muitas pessoas e não consigo me lembrar de metade dos nomes da galera com quem troquei idéias e risadas. Mas valeu muito, fiquei amarradão por ter surfado aqui. Como disse Zé do Barco (Angelo): Ano que vem vamos arrumar uma lancha mais potente e o lago estará estar maior… Ou seria que mar estará maior?