Pontal da esperança
Por Ricardo Macario
Durante a infância e a adolescência, a maioria das pessoas compartilha uma característica comum: a de sonhar com o futuro. Nessa fase, normalmente os sonhos transitam quase que exclusivamente no campo do hedonismo, ou seja, sonha-se com algo que seja fonte de prazer e satisfação.
No caso de jovens surfistas não é diferente. Fissurados pelo esporte, muitos sonham em ter a vida de um atleta profissional de elite, viajando pelo mundo e competindo nas melhores ondas em lugares paradisíacos.
Na trilha de esportes tradicionais como0 futebol, tênis ou automobilismo, o surfe competitivo atingiu um nível técnico tão alto que todos os detalhes fazem a diferença no resultado final.
Com isso, a formação dos atletas também começa cedo e, quanto mais preparado eles estiverem para a atribulada vida profissional, maiores serão as chances de obterem sucesso.
Embora o Brasil figure hoje entre as quatro maiores potências mundiais do esporte, é sabido que nossos atletas ainda não possuem a mesma infra-estrutura de americanos, australianos e havaianos – e já somos ameaçados pelo bom trabalho dos sul-africanos.
Para começar a mudar esse quadro, foi promovido na última semana de julho o primeiro Hang Loose Surf Camp, na cidade de Itacaré, litoral baiano.
Idealizado e comandado pelo experiente técnico Paulo Kid, do Guarujá (SP), o projeto reuniu alguns expoentes da nova geração brasileira numa clínica em que, além de muita diversão e surf, os jovens atletas tiveram noções básicas sobre táticas de competição e postura profissional e aprenderam a importância dos cuidados com o corpo e a mente.
Ao lado de Kid, participaram da clínica o preparador físico Ricardo Vilalva e a psicóloga especializada em esporte Diva Assef. “Esse era um sonho antigo, de passar minha experiência adiante e oferecer às novas gerações a oportunidade de aprender com os erros das gerações passadas. Quanto mais estrutura os atletas tiverem durante sua formação, maiores as chances de vencerem na carreira profissional”, revela Kid, que competiu no extinto circuito brasileiro da Abrasp e foi campeão brasileiro de longboard.
Para este pioneiro encontro foram convidados os catarinenses Cauê e Luan Wood e Santiago Muniz, o pernambucano Ian Gouveia, os paulistas Sidney e Leonardo Guimarães, Thiago Guimarães, Victor Bernardo, Jessé Mendes e Gabriel Medina, o carioca Lucas Silveira e o baiano Yagê Araújo, local de Itacaré.
Os dois primeiros dias do Surf Camp foram dedicados à parte técnica, com simulações de baterias e análise tática em cima das filmagens feitas por Kid.
Dono de uma bela linha e um vasto repertório de manobras modernas, além de excelente leitura de onda, Gabriel Medina foi o destaque nas disputas realizadas na Prainha, em ondas difíceis de meio a 1 metro mexidas pelo vento Sul.
Mas, no geral todos apresentaram excelentes qualidades e mostraram que não foram convidados à toa para a clínica. Todos os dias pela manhã, Vilalva aplicava sessões de alongamento e aquecimento nos atletas e dava toques sobre a importância dos cuidados com o corpo.
“Um atleta de ponta tem de dar atenção especial a três fatores: condicionamento físico, alimentação balanceada e repouso. Se um deles falhar, o elo se quebra. Muitos atletas ganham tudo na carreira amadora, mas somem quando viram profissionais, ou não conseguem manter-se na elite por falta de um trabalho preventivo”, explica Vilalva.
“Nossa intenção na clínica é conscientizar essa garotada. Eles precisam aprender que estão na melhor idade para estimular a flexibilidade, por exemplo, que é entre 11 e 14 anos. A maioria acha que já surfa bem e não precisa alongar, mas não pensam que criando esse hábito irão surfar ainda melhor e garantir a saúde do corpo por mais tempo”, completa o preparador físico, que já realiza um trabalho específico com Sidinho e Jessé, no Guarujá.
No fim do dia, todos se reuniam para debater as atribuições de um surfista profissional e recebiam dicas e toques de Kid sobre temas variados, como preparação para as competições, planos e estratégias de baterias, foco e concentração, relacionamento com os patrocinadores, com a mídia e com o shaper; de Vilalva sobre alimentação e preparo físico; e de Assef sobre o aspecto psicológico que envolve a rotina de um atleta, desde a definição de metas e objetivos, estímulo da motivação até a necessidade de saber lidar com vitórias e derrotas.
Durante a clínica, a psicóloga aplicou testes e atividades para conhecer os pontos fortes e fracos e o nível de foco e motivação de cada um, entre outros detalhes. Embasada pela experiência adquirida em trabalhos no vôlei, basquete e tênis, Assef afirma que atualmente o surf competição é um dos esportes mais estressantes e que mais exigem o controle mental dos competidores, graças às diversas variáveis a que são submetidos.
“A subjetividade do julgamento e as constantes e imprevisíveis mudanças no campo em que é disputado (no caso, as ondas do mar) fazem do surf um esporte extremamente estressante para o competidor. Por isso, o domínio mental faz toda a diferença”.
Depois de um dia sem surf devido às péssimas condições do mar, os últimos dois dias do Surf Camp foram dedicados aos treinos. Na esperança de pegar ondas melhores, saímos em duas Land Rovers rumo ao norte da região, mas o implacável vento Sul não aliviava.
Fizemos uma session quase “burocrática” num pico chamado Algodões, em que poucos se deram bem, e pegamos o longo e cansativo caminho de volta pra casa. Já em Itacaré, decidimos checar o Pontal, um dos únicos picos em que o vento poderia estar terral.
Lá encontramos as melhores ondas do dia, mas a fome e o cansaço, aliados à impaciência típica da idade, fizeram com que a garotada quisesse voltar para casa pra mais uma rodada de baralho ou futebol.
No entanto, a balsa demoraria mais uma hora pra chegar e sugerimos uma sessão de fotos no pico. A maioria resmungou, mas como dois atletas e os adultos toparam, ficou decidido que um dos carros voltaria ao Pontal.
Foi aí que a experiência e a sensibilidade de Kid com a molecada fez a diferença. Sabiamente, ele explicou que a matéria na revista teria espaço apenas para fotos de ação de dois ou três atletas, e perguntou quem estava disposto a brigar por esse espaço.
Foi o suficiente para que, em poucos segundos, vários garotos começassem a disputar um lugar no carro. Logo todos estavam motivados a cair na água. No fim, os dois carros voltaram ao pico e os atletas fizeram a melhor sessão da viagem, com altas imagens registradas.
O episódio foi marcante e mostrou que, por mais que sejam apenas garotos querendo curtir e aproveitar a vida privilegiada que levam, eles já têm consciência de que são profissionais e precisam levar a sério as escolhas que fazem, pois elas determinarão o sucesso deles no futuro.
“Há algum tempo, observando o surf profissional brasileiro, sentimos a necessidade de oferecer essa estrutura às novas gerações, para que os próximos atletas cheguem mais preparados e mais cientes do compromisso deles com o esporte, com os patrocinadores e com eles mesmos. Tentamos abordar um pouco de cada coisa, sempre com equilíbrio, descontração, e espero que possamos melhorar ainda mais isso tudo para os próximos anos e acompanhar a evolução do esporte, que está cada vez mais profissional”, avalia Kid.
Comprovando a importância e a eficácia da clínica, boa parte dos atletas que participou do Surf Camp teve excelente desempenho na terceira etapa do circuito brasileiro amador, disputada na primeira semana de agosto em Ilhéus: Jessé Mendes venceu as categorias Iniciante e Mirim – as primeiras conquistas dele no circuito; Gabriel Medina ficou em segundo lugar nas mesmas categorias – prova de que “treino é treino, jogo é jogo”; Sidinho fez semifinal na Iniciante; Thiago Guimarães fez final na Mirim e na Junior e Cauê Wood fez semifinal na Mirim.
Para estes meninos, o doce sonho de ser um surfista profissional está cada dia mais próximo de se tornar realidade. Cabe a eles aproveitar da melhor forma as oportunidades que surgirem no caminho.